22 de Abril de 2019
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Atirar primeiro e ver depois?

COLUNISTA - Rafael Andrade

Vimos no domingo, dia 7 de abril, a face de uma democracia que vai à bancarrota. O músico Evaldo Rosa, de 46 anos, foi executado com 80 tiros na zona norte do Rio de Janeiro. Em entrevista, a esposa do músico, Luciana Oliveira, disse que os militares deram risada após o "incidente”. Na mesma semana, o jovem, Christian Felipe, de 19 anos, foi morto com um tiro
nas costas, em blitz do Exército, na zona Oeste do Rio. Ora, essa é a demonstração fidedigna de
um Estado opressor, autocrático, que executa jovens, pais e mães de família todos os dias nas
periferias do país. Segundo relatório da Anistia Internacional, a polícia brasileira é a que mais
mata no mundo, precisamos nós de outra força repressiva? Tendo a polícia mais letal do
mundo?

Em tempos e tempos os saudosistas de 1964 pedem e clamam pelos militares nas ruas. Jair
Bolsonaro é exemplo desse descontentamento popular, ganhou as eleições com um discurso de
fácil aceitação, a defesa da ordem e da lei, o combate à criminalidade. Sim! Nosso Presidente!
Cuja incompetência é latente, e as soluções dadas por ele são mais ou menos de uma criança de quatorze anos. Em declaração recente ele disse que acabaria com a criminalidade do Rio
espalhando panfletos para os bandidos se entregarem e daria um prazo para que isso
acontecesse, caso contrário, metralharia a Rocinha.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSL), por diversas vezes e em diversas
ocasiões, defendeu a lei do abate, é cedo para poder afirmar, porém isso está refletindo em uma mudança significativa de atitude na ponta da hierarquia militar, que estariam respondendo com exacerbada violência. Estaríamos vivendo já a lei do abate? O atira primeiro, pergunta depois?

A violência toma conta da sociedade brasileira em níveis jamais vistos, a luz amarela já acendeu
faz tempo – principalmente sobre o excesso do uso da força nas abordagens policiais.
A absoluta falta de preparo por parte das forças armadas é extremamente importante, e é
importantíssimo colocar em pauta no debate público. Efetuar 80 tiros em um carro sem saber
exatamente do que ou de quem se tratava é a face mais grotesca de uma democracia que está
indo rumo ao abismo. O gatilho foi apertado pelos militares, mas quem carrega a culpa desse
fuzilamento em praça pública é – Jair Bolsonaro, o governador Wilson Witzel e o super
ministro Sérgio Moro.

Devemos criar soluções de reconstruir as forças policiais em um debate público e democrático
com a sociedade, mas não só, a violência deve ser tratada como consequência de questões
estruturais da sociedade brasileira, ou seja, o combate da desigualdade social, o racismo
estrutural e de oferecer oportunidades iguais a população, principalmente com uma educação
pública de qualidade.

Infelizmente nosso Presidente vai na contramão do mundo civilizado, contribuindo com a onda de violência que toma as ruas do país, desde o segurança do metrô que agride os usuários até o segurança do supermercado que espanca um cachorro até a morte. Esse é o retrato de uma sociedade em que a banalização da violência e da morte e a recusa dos valores internacionais dos direitos humanos são sua expressão mais bem acabada.


Rafael Andrade - Sociólogo, mestrando em Ciências Sociais

COLUNISTA - Rafael Andrade
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