02 de Abril de 2020
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Tá-tum, Tá-tum... Tátum, tá-tum...

COLUNISTA - Roberto Melo Moraes

Ao fundo da nossa casa passava a linha do trem quando os trens passavam muito e faziam parte da rotina da cidade. A cidade devia seu crescimento à chegada da estrada de ferro que a cortava em duas partes. Metade da minha infância e adolescência passei equilibrando-me sobre os trilhos do trem, de um para outro, do outro para o um, quando não conseguíamos seguir adiante sobre um só, e também, fora deles, acertando o passo pela distância entre dois dormentes. Tudo isso sobre pedras e pedras, que vez ou outra enfileirávamos sobre os dois trilhos só para ver o trem esmigalhando-as implacavelmente, embora houvesse uma lenda entre as crianças de que tal traquinagem poderia descarrilhar o bruto, o que deixávamo-nos bem apreensivos quanto ao resultado da brincadeira.

Sempre ficava aliviado quando o trem vencia e mantinha sua invencibilidade. Era invencível e perigoso, pois só era possível atravessar de um lado para outro da cidade cruzando a linha, não havia viadutos ou túneis, à exceção de uma passagem por baixo dela que só chamávamos de túnel por um exagero para lá do razoável. Havia poucas cancelas nos cruzamentos dos trilhos com as ruas, que foram aparecendo aos poucos, uma aqui outra ali, mas em todos eles existia a presença obrigatória de sinais sonoros e visuais, em postes, com placas em forma de ‘xis’ fixadas logo abaixo das luzes vermelhas e verdes, com a palavra "Atenção” duplicada em cada braço. Sem trem à vista, sinal verde, era só atravessar com o carro, de acordo com que as condições que cada cruzamento permitia, existiam lugares onde era possível passar quase sem reduzir a velocidade e outros em que era preciso fazer uma prova de rampa.

Os carros não eram uma raridade, mas também não tinham o dom da onipresença dos nossos dias. Os bons motoristas também eram raros e as mulheres hábeis no volante, inexistentes. Para alguns deles, atravessar determinados cruzamentos era uma aventura, com parada obrigatória mesmo quando desnecessária -sinal verde e nenhum sinal do trem no campo de visão-, parada que, em alguns casos, tornava a manobra mais difícil, em uma subida, por exemplo. Quando o trem apontava lá longe, ainda fora da vista, o sinal ficava vermelho e um sinal sonoro estridente e quase insuportável disparava. O problema era que entre o disparo do senhor altos decibéis e a passagem de fato do trem o intervalo era enorme. E o incômodo sonoro era um estímulo a passar rapidinho mesmo com o sinal vermelho. Ou seja, havia emoção envolvida na operação.

A verdade é que alguns veículos foram abalroados pelo trem, alguns de forma trágica, com os veículos sendo arrastados 50, 100 metros, mortos, sangue na lataria destroçada e nos bancos, e um montão de curiosos ao redor, atração trágica rara e sempre bem frequentada. Em um desses, um amigo vizinho perdeu seu pai, que saíra de madrugada com os amigos para uma pescaria, e a Kombi em que iam ficou à disposição do poder esmagador do trem em uma dessas passagens. Acho que foi minha estréia em acontecimentos trágicos ocorridos na cidade.

Outro poder que tinha era fazer tremer tudo o que estava perto de seu caminho. Era o caso da minha casa, tudo tremia, em especial as janelas metálicas, com a presença adicional daquelas partes de vidro e metal, tudo deslizante, diria, aliás, bem mal deslizante. As paredes da casa registravam os eventos com um leve tremor e com o silencioso aparecimento das trincas, nada exagerado.

Pois bem, um dos Natais familiares foi em casa. A parentada, basicamente de São Paulo, inundou nossa casa e alguns quartos de hotel. Um cunhado de minha mãe dormiu com minha tia no quarto que era o das meninas, junto ao dos meus pais, ambos localizados mais ao fundo da casa, região mais próxima da linha do trem. Durante a noite, meus tios já dormindo, o trem das 23h30, o infalível, iniciou sua passagem, precedido por sua buzina apocalíptica e longa que prefaciava o tremor geral e acordava as pessoas desacostumadas à rotina férrea. Meu tio acordou apavorado achando que era um terremoto. Virou uma história da família, com o tempo exagerada para uma fuga desesperada do meu tio da cama, só de cueca, em meio à catástrofe ferroviária.

Seria injusto não registrar um ponto a favor dos eventos rotineiros e garantidos da passagem dos trens: o escândalo histérico inicial era seguido pelo reconfortante som repetitivo das rodas metálicas do trem passando ritmicamente sobre as emendas dos trilhos: tá-tum, tá-tum... (ligeira pausa) ...tá-tum, tá-tum... e assim por adiante durante um longo a prazeroso tempo, um embalo no colo do som. Eu gostava desse embalo acústico e carrego esse afeto sonoro comigo até hoje, a ponto de achar que o som e o leve tremor não são outra coisa senão o meu coração batendo.

Divulgação
Roberto Melo Moraes
Roberto Melo Moraes é assisense da gema, nascido na Santa Casa de Misericórdia em 1960. Filho de Paulinho e da dona Maria Luíza, ele é roteirista e escreve sobre suas lembranças assisenses.
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