25 de Maio de 2022
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Corpo da escritora e acadêmica Lygia Fagundes Telles é velado na Academia Paulista de Letras

O corpo da escritora Lygia Fagundes Telles, que morreu na manhã deste domingo (3), aos 98 anos, foi velado na Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche, Centro da capital paulista. A cerimônia de despedida começou por volta das 18h e terminou às 20h30.

O velório foi aberto ao público e seu corpo será cremado no cemitério da Vila Alpina em uma cerimônia restrita para a família na segunda-feira (4).

Ela morreu em casa, em São Paulo, de causas naturais, segundo Juarez Neto, da Academia Brasileira de Letras (ABL). A academia informou que fará uma Sessão da Saudade na próxima quinta-feira (7), no Salão Nobre, em homenagem à autora.

Prêmios
Lygia recebeu vários prêmios ao longo da carreira. O prêmio Camões (2005), o Jabuti (1966, 1974 e 2001) e o Guimarães Rosa (1972). A escritora tem obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco, português de Portugal, além de adaptações de suas obras para o cinema, teatro e TV.

Para o presidente da ABL, Merval Pereira, a escritora foi uma figura exponencial, fundamental não só para a literatura.

"A morte da Lygia faz que a academia perca uma figura exponencial, ela foi fundamental não só para a literatura, ela foi uma grande líder feminista, ela relatava a sua vida moderna, e fazia isso colocando as mulheres em uma posição de destaque. Então, além de grande escritora, ela era uma grande figura humana. [...> A literatura brasileira perde uma grande mulher", disse Merval em entrevista à Globonews neste domingo (3).

O governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, decretou luto oficial por três dias pela morte da escritora.

"A grande dama da literatura brasileira retratou a vida de gerações de homens e mulheres. Meus sentimentos aos familiares e amigos", escreveu Garcia em uma rede social.

Em nota, a Academia Paulista de Letras lamentou sua morte.

"A mais notável personalidade da literatura brasileira, patriota e democrata, já era lenda em vida. Permanecerá no Panteão das glórias universais e, para orgulho nosso, era mais academicamente bandeirante. Não faltava aos nossos encontros semanais no Arouche. A gigantesca e exuberante obra continuará a ser revisitada, enquanto houver leitor no mundo", escreveu José Renato Nalini.

Biografia
Lygia nasceu em São Paulo em 19 de abril de 1923 e passou a infância no interior do estado. Logo depois de alfabetizada, reproduzia nos cadernos escolares as histórias que ouvia. Ela escreveu seu primeiro conto, "Vidoca", em 1938.

Na época do ensino Fundamental, ela voltou para a capital com o pai, advogado, e a mãe, pianista, e estudou na Escola Caetano de Campos, colégio tradicional da cidade. Com apenas 15 anos, publicou seu primeiro livro de contos, "Porão e Sobrado".

Em seguida, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo, onde se formou. Quando era estudante do pré-jurídico, a jovem cursou a Escola Superior de Educação Física da mesma universidade.

Segundo a ABL, ainda na adolescência manifestou-se a paixão, ou melhor, a vocação para a literatura incentivada pelos seus maiores amigos, os escritores Carlos Drummond de Andrade e Erico Verissimo.

Lygia considerava Ciranda de Pedra (1954) o marco inicial de suas obras completas. O romance virou novela na TV Globo quase 30 anos depois, em 1986. A novela foi escrita por Janete Clair, com a colaboração de Dias Gomes.

Também em 1954, nasceu seu filho Goffredo da Silva Telles Neto, de seu primeiro casamento. Cineasta, ele viria lhe dar duas netas: Margarida e Lúcia, mãe da única bisneta, Marina.

Ainda nos anos 1950, foi publicado o livro Histórias do Desencontro (1958), que recebeu o Prêmio do Instituto Nacional do Livro.

O segundo romance, Verão no Aquário (1963), Prêmio Jabuti, saiu no mesmo ano em que já divorciada casou-se com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes. Em parceria com ele, Lygia escreveu o roteiro para cinema Capitu (1967) baseado em Dom Casmurro, de Machado de Assis.

A década de 1970 foi de intensa atividade literária e marca o início da sua consagração na carreira. A escritora publicou alguns de seus livros mais importantes: Antes do Baile Verde (1970), As Meninas (1973), Seminário dos Ratos (1977) e o livro de contos Filhos Pródigos (1978).

Em 1977, em plena ditadura, foi uma das autoras do "Manifesto dos intelectuais" contra a censura.

Em 1985, ela foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, se tornando a terceira mulher a entrar para a ABL, e fez um discurso histórico.

"Imaginai uma reunião na linha dos malditos, dos raros, daqueles que pelos caminhos mais inesperados escolheram a ruptura. Fora do tempo e ocupando o mesmo espaço estão todos em uma sala. É noite. Os gênios ignorados num país de memória curta, que parece preferir os mitos estrangeiros, como se estivéssemos ainda no século 17, sob o cativeiro do reino. Os mitos estrangeiros que continuam sim nos vampirizando. Nós já estamos quase esvaídos e ainda oferecemos a jugular no nosso melhor inglês, o vosso amor é uma honra para mim".
G1
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