29 de Setembro de 2020
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A inércia do Estado, a inoperância da Prefeitura e o mau atendimento da UPA de Assis mataram a minha mãe

Minha mãe era uma senhorinha que completaria 80 anos de vida no próximo dia 26 de maio.

Há 17 anos foi diagnosticada com mal de Alzheimer. Tirando a demência, tinha uma saúde de ferro. Não apresentava problema de pressão arterial, diabetes ou qualquer outra doença comum nesta idade. Era cuidada com muito zelo por todos da família. Os sete filhos se organizavam com a ajuda de uma cuidadora para dar o melhor pra ela. Até que contraiu dengue.

No dia 1º de maio eu e meu irmão percebemos que ela não estava bem. Uma febre de quase 40 graus e uma inquietude nas mãos. Então a levamos para Santa Casa de Misericórdia de Assis, onde um médico a examinou e pediu o exame que constatou a dengue. Porém, este mesmo médico disse que as plaquetas estavam altas e que não haveria necessidade de internação. Baseado apenas no exame receitou o ‘bendito’ paracetamol para febre e mandou minha mãe de 80 anos para casa.

Os próximos dias foram de agitação e a febre persistia. Na madrugada do dia 5, minha irmã a levou à Santa Casa e o médico novamente disse que não era necessária a internação. Outro médico da família foi até a casa da minha mãe no mesmo dia e também disse que não havia necessidade de interná-la.

Ela não dormiu do dia 5 para o dia 6, quarta-feira. Estava com falta de ar e a boca roxa. Minha irmã resolveu então chamar o SAMU para que a levasse ao Hospital Regional ou Santa Casa para ser atendida dignamente. Entretanto, no caminho alguém ligou dizendo para levá-la à UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Minha irmã achou que fosse apenas para cumprir algum trâmite burocrático e que logo a levariam para o Regional ou Santa Casa. Ledo engano. Ela entrou por volta das 10h na unidade e saiu para internação no Hospital Regional no começo da noite. Ficou todo esse tempo na UPA, sem medicação, sem soro, sem alimentação e sem dignidade.

O médico plantonista da UPA não levou em consideração o estado clínico da minha mãe, e sim os exames laboratoriais, que ficaram prontos por volta das 18h e não apresentavam alterações.
Baseado nisto, ele ‘achou’ que não havia necessidade de interná-la. Não sou médica, mas sei que o estado clínico apresentado pelo paciente no momento do atendimento é soberano. Isso me revolta porque ele avaliou o papel e não a paciente.

Minha mãe morreu na sexta-feira, dia 8, por dengue, insuficiência respiratória e pneumonia.

Ela conseguiu ser internada no Hospital Regional depois de muita discussão e intervenção de pessoas. Não fosse isso, teria voltado da UPA para casa, porque os exames que fez lá não acusaram nenhum problema.

A nossa maior indignação é que ela foi levada para a UPA ao invés da Santa Casa, onde sempre foi atendida pelo convênio do Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual), dignamente. Será que se tivesse sido internada logo pela manhã ela não teria sobrevivido? Talvez não, mas talvez sim.

Será que mais senhorinhas feito minha mãe terão que morrer para que algo realmente eficaz no combate a esta praga seja feito? Não vejo ações eficazes do Estado, nem da Prefeitura Municipal de Assis para combater esta doença. Os resultados de exames feitos na UPA têm que sair com mais agilidade para que o doente seja medicado logo. Cadê a vacina que até agora só se ouviu falar? A dengue é problema muito sério e precisa ser tratada como tal. Tem que haver mais investimentos no combate a essa doença antes que mais mães como a minha morram pelo descaso.

A dengue é problema sério, e nem o Estado, nem a Prefeitura estão sabendo lidar com ela.


Sidineia Paião -Jornalista

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