30 de Outubro de 2020
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Dr. Sócrates: democracia com as infinitas oito letras

Por Ulisses Coelho

O mundo do futebol está de luto. No último fim de semana o Dr. Sócrates foi mais um dos grandes que deixaram nosso país e entrar nos labirintos da memória e da eternidade. Um jogador diferenciado que se caracterizou por seus posicionamentos políticos muito mais do que sua habilidade, também fora do comum, dentro dos gramados.

Enquanto atleta profissional notabilizou-se por ter vencido uma meia dúzia de campeonatos estaduais, pelo Corinthians, e por ter sido o capitão da derrotada seleção brasileira da copa de 1982. Nessa data eu contava um ano de idade, mas por ser admirador de futebol bem jogado, fiz questão de assistir todas as reprises das partidas do time canarinho nessa empreitada. Futebol de alto nível, mas que faltou um algo mais para ser campeão.

Entretanto, Dr. Sócrates foi um vencedor da cidadania. A conhecida "Democracia corinthiana" ficou famosa por jogadores, cartolas e comissão técnica decidirem, através do voto, os rumos da equipe de futebol, desde as datas de concentrações até as contratações de jogadores. Tal feito, realizado na passagem dos anos de 1970 para os de 1980, representou o maior movimento político da história do futebol brasileiro, pois foi um dos fatores que culminaram com a maciça campanha pelas "Diretas já", mobilização essa que exigia o direito do povo do voto direto para presidente da república.

O "Doutor", além de conciliar suas atividades enquanto estudante de medicina com as de jogador de futebol, fez do futebol um espaço de ativismo político. Enquanto muitos "engajalóides" encontram no futebol apenas uma forma de manter as massas controladas por entretenimento, nos moldes do circo da famosa frase de Juvenal de que o povo precisa de pão e circo para não se rebelar, Dr. Sócrates inverteu essa perversa estratégia usando o "circo" que o futebol representa para politizar a massa brasileira, com o intuito de botar pra correr a Ditadura Militar da administração central do governo do Brasil.

Na qualidade de jogador de futebol, o Doutor pode ser questionado pelas poucas conquistas que teve, afinal atuou em times que em sua época não tinha o mesmo talento que ele; todavia, enquanto homem de seu tempo fez a sua parte deixando sua vida como exemplar no que diz respeito à seriedade, ao respeito e à participação política. Aquele que é um genuíno filho de sua época faz de sua vida uma referência para as demais.

Dr. Sócrates correu com os militares do poder, vivenciou a prática política e viveu intensamente. O moralista panaca que usar a relação que teve com o álcool não passa de um reacionário prestando serviços aos interesses antidemocráticos. Afinal, a democracia passa pelo direito de escolha, não é?

Até a próxima, Doutor!!!

Ulisses Coelho
http://filosofossuicidas.blogspot.com/


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