17 de Agosto de 2022
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Isso é estupro?

COLUNISTA - Poliana Possatti

Quinta-feira, 23 de junho de 2022, conversava com uma pessoa do meu círculo social sobre o caso da menina de 11 anos de Santa Catarina que teve o direito de aborto negado pela justiça após ter sido estuprada. Naquele momento, acabara de sair novas informações sobre o caso, o estupro foi causado por um menino de 13 anos, que convivia com a criança. Muitos solicitavam retratação com a juíza. Mas o caso me trazia ainda mais espanto e perplexidade. Ao invés de uma vítima, eram duas.

Ao iniciar uma discussão sobre este caso, a pessoa com quem conversava comigo com os olhos marejados disse: Essa é a minha história. Contou que quando tinha 13 anos era educada pela avó, mas decidiu estreitar laços com sua mãe e ir morar com ela.

A mãe convivia com um homem que não era seu pai. Para que o suposto padrasto não se envolvesse com ela, sua própria mãe a pediu para que ela se relacionasse com o irmão do padrasto, na época com 16 anos. "Éramos namoradinhos, mas eu tinha 13 anos, não entendia muito bem o que era namorar", disse. A mãe insistiu na relação e em um dia quando todos saíram de casa, ele a amarrou na cama contra sua vontade e a estuprou. "Ele fez coisas comigo. Isso foi estupro, não foi?", questionou a vítima hoje com 35 anos de idade. Uma pergunta carregada de culpa e que talvez seja melhor conviver com o sentimento de dúvida do que sobreviver com memórias tão difíceis, mesmo 21 anos depois.

Divulgação - Poliana Possati - Foto: Divulgação
Poliana Possati - Foto: Divulgação


Meses após o abuso sexual descobriu que estava grávida. A mãe ficou sabendo e a expulsou de casa. Foi para às ruas onde a solidão e a fome a acompanharam. Levou a gestação até o fim e decidiu ter o bebê. A avó a acolheu novamente, lhe ofereceu um teto e ela recomeçou sua vida, ao lado da sua filha. Ela tinha tudo pra tomar os piores rumos na vida. Ao invés disso, se capacitou, casou-se teve outro bebê e tocou sua vida em frente.

Mas será que seguiu em frente mesmo?

As marcas que sofreu a acompanham até hoje. Chora ao ver notícias como a da menina de Santa Catarina na TV e não consegue assistir filmes ou séries que retratam o tema. Ela teme que suas filhas engravide um dia, mesmo que de forma consensual de um namorado ou marido.

Dias depois inicia uma grande repercussão sobre o caso da atriz Klara Castanho, de 21 anos. Ela foi vítima de estupro e ao descobrir a gravidez já avançada optou por entregar o bebê para adoção. Foi duramente criticada por isso. A menina de Santa Catarina foi criticada por não levar a gestação até o final. Já a atriz foi criticada por levar a gestação até o fim e encaminhar o bebê para adoção. Isso apenas mostra que o incomoda na sociedade não é o aborto são as decisões que as mulheres tomam em suas próprias vidas. Vocês não condenam aborto ou adoção, vocês condenam as mulheres. O julgamento perverso das pessoas faz com que mulheres se questionem se de fato foram realmente estupradas e se sintam culpadas após tamanha atrocidade.

No ano passado, tivemos um estupro a cada 10 minutos e um feminicídio a cada 7 horas. Você realmente acha necessário que preciso me desculpar com uma magistrada que negou o direito ao aborto a uma criança pelo fato do ato ter ocorrido com um outro menor de idade? São mais de 100.000 meninas que sofreram violência sexual. Somos o 5º país que mais mata mulheres no mundo.

Não, não irei me desculpar ou me retratar por aquela criança e tantas mulheres serem estupradas e serem vítimas da justiça brasileira ao ter os seus direitos negados. Vocês querem nos fazer pedir perdão por sermos violentadas e assassinadas todos os dias? O que mais vocês querem de nós?
Redação AssisCity
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