02 de Julho de 2022
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O luto invisível da perda gestacional

COLUNISTA - Poliana Possatti

Chegou o tão esperado dia da ultrassom para ver o bebê. No lugar dos batimenos cardíacos, o silêncio.

Neste momento a sensação é como cair em um buraco muito grande e fundo sozinha. Você não enxerga nada, não ouve mais ninguém. Está tudo escuro e frio. Uma enorme cratera se abre no coração. Que dor é essa? O que eu faço agora?

Dia das Mães se aproxima e consigo me lembrar exatamente da angústia que essa data me trazia após os abortos espontâneos que sofri. Foram três abortos, o último deles com 5 meses de gestação. Me angustiava quando as pessoas me davam parabéns e ficava nervosa quando não me falavam nada. Ninguém sabe como tratar uma mãe de anjo. Talvez nem as mães de anjo ainda saibam como querem ser tratadas. Ao invés da comemoração, muita dor, ansiedade e questionamentos como: Será que um dia terei meu bebê nos braços? Serei mãe um dia?

Acontece que o aborto ainda é um tabu. As pessoas não falam disso. Após meu primeiro aborto com diagnóstico de gestação anembrionária cheguei a ouvir de familiares próximos: "Mas não tinha nada ali, não tem porque sofrer".

Divulgação - Colunista Poliana Possati - Foto: Divulgação
Colunista Poliana Possati - Foto: Divulgação


Perde-se um filho. Perde-se sonhos. Perde-se uma parte de si. Todo aquele sentimento de realização, planejamentos do futuro, o chá revelação, a escolha do nome e os sapatinhos de crochê são arrancados de você subitamente.

Durante o luto ouvimos com frequência: "Deus sabe o que faz", "Deus te deu um livramento pois poderia vir com problema"; "vocês podem tentar outras vezes" ou até mesmo "foi melhor agora no começo", são frases que não ajudam.

Mas o que ajuda?

Um clichê, mas diria que o tempo é o melhor dos remédios. Voltar pra si, se priorizar, enfiar a cara no trabalho - se você gostar - viajar, correr, pedalar, aprender técnicas de respiração, meditação e procurar uma rede de apoio nas redes sociais foram algumas das atitudes que me ajudaram em minha recuperação.

Registro aqui os meus sinceros sentimentos a todas essas mães que não tiverem a oportunidade de segurar seus bebês nos braços. Saiba que não estão sozinhas. Só depois da tempestade vem o arco-íris.
Divulgação - Poliana Passati
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