23 de Janeiro de 2022
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Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim

COLUNISTA - Kalil Dib

Nesta cidade conheci uma pessoa bem-educada, um ilustre morador. Todos os dias passeava com seus sentimentos pelas ruas. Dedicava sua vida à gentileza jamais retribuída por essa gente carrancuda. Estava sempre disposto a espalhar palavras de bondade, aprendidas em livros que lia nas noites mal dormidas.

Seus sorrisos, abertos logo na manhã chuvosa de tempo feio, eram motivos de chacota de alguns vizinhos do bairro. As moças nunca entendiam tamanha facilidade em mostrar os dentes, sem mesmo ter um motivo para isso. Afinal, ele era sozinho, morador de uma vida sofrida, solitária, sem qualquer alma para alimentar.

Não entendiam, todos os residentes daquele lugar, como é que alguém tão pobre poderia conceber tanto amor assim. Alguns até se recusavam a um cumprimento pela manhã ou após o almoço: se viravam, mudavam de direção, atravessavam a rua para não topar de frente com o autor deste deboche. "O mundo acabara, e ele sorrindo. Que insensível!"

Nada abalava aquele senhor bem-educado, que conheci por esses dias. Aos que tinham a paciência de uma conversa franca, ele exalava bom-humor e dava conselhos a quem estava disposto a escutar. Dizia quase sempre sua percepção de mundo. Concordava que a vida é sofrida e lembrava a canção que diz "mas ela é boa de se viver em qualquer lugar". E dava seus motivos (tantos que cansavam), para explicar a teoria.

Ao fim do bate-papo, que quase sempre acontecia em frente à padaria, acompanhado de um café e um pão na chapa, dizia ele palavras que talvez nem os pais dizem aos filhos. Parecia ele o pai de cada um.

Era mesmo de se espantar tamanha disposição em acolher aquele que nem mesmo conhecia. Por vezes era esculachado ao virar as costas e os conselhos dados eram amassados e jogados no lixo.

O lixo, aliás, dizia, era o que mais incomodava por aqui. "Tanto lixo nessa humanidade, que não sei por onde começar". Queria ele a disposição de todos seus próximos para reciclar aquilo que frequentemente era descartado.

Não entendia o desprezo da mãe à filha adolescente, que engravidou cedo por falta de estrutura - familiar, social, afetuosa. Também queria falar muitas coisas ao menino que abandonou a escola e passa dia e noite brincando de polícia e ladrão nas ruas e vielas da cidade. Tanto tempo, e gente, desperdiçados...

O senhor bem-educado destoava de todo o restante. Jamais questionou aquele que não o respondia. O importante era o próximo se sentir bem com um simples gesto - algo que deveria ser tão comum quanto abrir os olhos (e agradecer por isso).

No fim do dia voltava para casa: solitário, sozinho, perdido, esnobe, desleal à sociedade tão sofrida, que não aceitava tamanha educação em tempos de tantas sombras.
Em seu canto, respirava fundo e lembrava de todos os seus dias - trajetória de luta e fé, que o fez chegar neste ponto da vida com a consciência da importância de uma gentileza. Ninguém sabe das pedras que move para se manter em pé diante de um universo cada vez mais distante de seus conceitos de humanidade. Não aceita se adequar a este mundo desprezível.

O senhor bem-educado, que conheci por esses dias, dissemina a paciência, consciência, amizade, amor, e tudo o que há de se fazer para transformar o dia de um desconhecido. Sozinho, hoje ele ainda é o desprezo da comunidade.

Para mim, tão triste com tudo o que estamos vivendo, foi um enorme prazer conhecê-lo.
Divulgação
Kallil Dib
é jornalista, formado pela FEMA
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