25 de Maio de 2020
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Áudio de médico do Incor sobre coronavírus em SP é verdadeiro, mas é 'a interpretação de um cirurgião', diz David Uip

No áudio, Fábio Jatene relata uma reunião científica que ocorreu no Incor para tratar da pandemia

O infectologista David Uip, coordenador do Centro de Contingenciamento do Novo Coronavírus em São Paulo, confirmou, durante coletiva de imprensa, que o áudio do médico Fábio Jatene, professor titular de cirurgia torácica do Instituto do Coração (Incor), que viralizou nesta quinta-feira (12) na capital paulista, é verdadeiro, mas foi uma "interpretação" de um cirurgião.

No áudio (veja transcrição completa abaixo), Jatene relata uma reunião científica que ocorreu no Incor na quarta-feira (11) para tratar da pandemia. Participaram, segundo o áudio, os médicos David Uip, Ésper Kallas e Marcelo Amato.

Em entrevista nesta quinta, ao lado do governador João Doria, David Uip não negou a previsão feita por Jatene em seu áudio, de que até 45 mil pessoas devem contrair a doença na Grande São Paulo. No entanto, Uip destacou que trata-se do pior cenário avaliado pelo comitê, já que o governo calcula que de 1% a 10% da população de todo o estado pode ser contaminado, enquanto o cálculo de Jatene é feito com cerca de 10% da população paulista com a doença.

Divulgação - David Uip durante coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes nesta quinta-feira (12)
David Uip durante coletiva de imprensa no Palácio dos Bandeirantes nesta quinta-feira (12)


"Esse áudio é do meu queridíssimo do doutor Fábio Jatene. Ele é verídico e é cabeça de cirurgião. Cabeça de cirurgião cardíaco é assim: ele pontua, interpreta e resolve", afirmou Uip durante coletiva sobre a doença no Palácio dos Bandeirantes.

"Então, essa foi a conversa e foi uma interpretação de um grande cirurgião e querido amigo, mas com posição de cirurgia, e não no contexto do planejamento", completou.

No áudio, que circula principalmente pelo WhatsApp, Jatene fala da necessidade de leitos de UTI para o tratamento da doença.

"Nos próximos quatro meses, na Grande SP, 45 mil casos estão prevendo e que vão precisar de UTI de 10 a 11 mil casos. E não tem 10 mil leitos de UTI disponíveis", diz o áudio.

Em coletiva, Uip chegou a confirmar o cálculo feito por Jatene em seu áudio, mas destacou que trata-se do pior cenário.

"Isso é decorrente de uma reunião científica que ocorreu ontem no Incor, onde eu fui falar de estratégia do governo do estado e, dentro das estratégias, nós planejamos de 1% a 10% [da população da Grande SP vai contrair o vírus>. Esse é o cenário. Então, é fazer contas. O que é um 1% de 26 milhões. O que é 80% de 1%, o que é 20% de 1%. Guardadas duas considerações: primeiro, que isso não se instala imediatamente, e que há a sazonalidade de uma pandemia. Nós não vamos precisar de todos os leitos amanhã. Vai se posicionando", disse Uip no evento.

"Então, o que foi discutido e o que o Fábio interpretou diferente, ou eu não tive a competência de falar de um jeito que ele deveria ter interpretado, foram cenários do ponto de vista daquilo que pode acontecer em todos os momentos. Planejador é isso, você planeja de 1% a 10% e aí é fazer contas. Segundo ponto importante: esta conta de 1% não é em cima dos 26 milhões, dos 26 milhões você elenca a população a partir de 50 anos de idade. Porque a população abaixo não vai ser internada e chega números e isso oferece ao gestor a possibilidade de ir em busca de recursos e investimento que é o papel do secretário de estado", completou.

Situação na Itália

No áudio que viralizou, Jatene menciona ainda o relato de Marcelo Amato, famoso médico intensivista, sobre como está a situação do vírus na Itália.

"Marcelo Amato contou que na Itália está o caos, porque as UTIs estão cheias, lotadas, abarrotadas e agora eles estão pondo pacientes em centro cirúrgico, porque centro cirúrgico tem respirador. Então, dá para botar o paciente no centro cirúrgico usando como uma sala de UTI. Todas as operações foram suspensas e eles estão tentando da melhor maneira fazer tratamento intensivo", diz o áudio.

De acordo com o coordenador, por exemplo, "o Incor tem uma unidade de terapia intensiva pra insuficiência respiratória que é comandada pelo professor Carlos Carvalho, essa unidade treinará todas as unidades de insuficiência respiratória dos hospitais do estado. Ela foi montada para um momento como esse", diz.

Uip também comenta momento em que Jatene fala sobre viagens no áudio.

"As viagens que têm também no áudio, a diretora clínica do HC, a professora Heloísa me perguntou como você acha que deve ser a postura dos profissionais da área de saúde em relação a viagem. A minha resposta é claríssima, não adianta você pensar que vai participar de evento científico na Itália, não vai porque não vai ter e eu não estou preocupado com o vírus, mas da mobilidade, se você vai ao evento na Itália, você não volta e agora é importante que nós tenhamos a maior força de trabalho atuando nas instituições", disse.

Ele destaca que não houve nenhuma restrição para que os médicos permaneçam no país, mas que ele aconselha que os médicos na linha de frente não viajem.

"É contra a mobilidade, e isso cada diretor clínico de hospital vai ter que ter uma postura. A minha posição é clara, David, você vai pro congresso? Eu não vou, eu lidero um grupo, eu tenho que ficar aqui, aliás, eu não vou nem a cem metros de onde estou porque, da mesma forma que eu tenho essa obrigação, os profissionais da saúde todos têm".

Veja a transcrição do áudio:

"Pessoal, hoje teve no Incor, na hora do almoço, uma reunião muito interessante sobre coronavírus. Uma reunião cientifica, foi o David Uip, foi o Esper Cavalheiro, foi o Marcelo Amato, cada um numa área especifica. O David foi falar das políticas de enfrentamento, o Esper foi falar sobre disseminação, o Marcelo Amato foi falar sobre como as UTIs estão se comportando – ele tem uma relação enorme com UTIs do mundo inteiro, é um intensivista superfamoso. Então, foi interessante o que eles falaram.

Agora, algumas coisas ficaram muito marcadas para mim. O David disse que a partir de hoje os casos vão explodir no Brasil. Porque já passou a ter a transmissão, que eles chamam, comunitária. Não é quem foi viajar, agora, quem não foi viajar já está passando para o outro que não foi viajar.

Diz que os casos vão explodir e ele tinha razão, porque ontem tinha 35 [casos> e hoje já tem 70. E a partir de amanhã, as coisas vão piorar mais ainda. Eles disseram para ter muito cuidado com pessoas de idade. Pessoas muito idosas não devem se expor de jeito nenhum. Reduzir ao máximo a possibilidade de contágio, porque, diz que, nos velhinhos a mortalidade tem chegado a 15%, 18% e, nos jovens, a 0,2%. Então, essa é uma doença que mata velho, não mata jovem.

Mostraram as imagens da tomografia dos casos da China, dos casos do Brasil, os que estão doentes no Brasil, e é impressionante como é parecido. Começa com vidro fosco, bilateralmente, depois como uns spots de condensação, bilateral. E diz que o raio-x muitas vezes não pega e a tomografia é o exame normal.

Esse paciente do [Hospital Albert> Einstein [se corrige>, do [Hospital> 9 de Julho, ele veio, fez raio-x, iam dispensar, fizeram a tomografia, estava coalhado de lesão. Então, esse é o problema.

O David também disse que devem ser, nos próximos quatro meses, na Grande São Paulo, 45 mil casos estão prevendo e que vão precisar de UTI de 10 a 11 mil casos. E não tem dez mil leitos de UTI disponíveis. Não tem.

Marcelo Amato contou que na Itália está o caos, porque as UTIs estão cheias, lotadas, abarrotadas e agora eles estão pondo pacientes em centro cirúrgico, porque centro cirúrgico tem respirador. Então, dá para botar o paciente no centro cirúrgico usando como uma sala de UTI. Todas as operações foram suspensas e eles estão tentando da melhor maneira fazer tratamento intensivo.

O HC já destinou a UTI do 11º andar, lá do instituto central, de 75 leitos só para corona – nós não temos isso no Brasil e eles já estão de prontidão para 75 leitos. Da sequência são os leitos do Incor que vão ser mobilizados e está se julgando que vai ser insuficiente – claro.

Essa é uma doença que a transmissão é de um caso para dois e dá três pacientes, às vezes quatro. Mas o problema é que, uma vez que a doença se instala, o pico de piora é rápido, entre cinco e sete dias.

E o que o Marcelo Amato estava falando é que o ideal é entubar o paciente o mais cedo possível. Porque, na China, eles ficaram fazendo pressão positiva sem entubação, e isso não melhorou os doentes e disseminou demais. Porque fica vazando pela máscara e o ambiente fica lotado. Eles contaram coisas assim, loucas. Diz que os caras colocavam aquele escafandro para tratar dos doentes, mas para não ter que tirar o escafandro, eles punham fraldas. Eles trabalhavam de fralda e faziam as necessidades na fralda. E o problema é que, quando eles iam tirar a fralda, se contaminavam. Tirar a roupa toda, se contaminavam. Diz que é muito difícil você não se contaminar no momento da troca da roupa. Disse que, com a entubação, reduziu a transmissão. Mas aumentou a transmissão entre enfermeiros. Porque as secreções corpóreas, como urina e fezes dos pacientes, aumentaram a transmissão na enfermagem, não dos médicos.

O Marcelo falou que a média na China e na Itália está sendo de três semanas de tubo, de ventilação mecânica, para recuperação dos doentes. Então, é uma coisa muito louca. O David disse: "Não pensem em viajar. As coisas estão acontecendo dia a dia. Você pode estar naquele país e imediatamente eles fecham a fronteira. Não pensem em viajar porque você vai ficar preso lá".

Vocês viram agora que o Trump suspendeu as viagens da Europa para os Estados Unidos. Imagine o impacto que isso vai ter, né? Suspendeu a NBA. E esse gráfico é muito interessante e mostra como a progressão é geométrica. Hoje a gente teve muita informação lá e todo mundo ficou meio apreensivo.

Ele acha que em quatro meses resolve o surto. Vai vir, vai vir com força, vai contaminar um monte de gente. O Esper acha que o ano que vem já virou um vírus normal, porque quem tinha que contaminar já contaminou, já adquiriu resistência. Os jovens não vão demonstrar a doença. E diz que o problema é que não sabe como vai ser o comportamento aqui no calor. Ser será pior, melhor ou igual. Isso ninguém sabe e não tem nenhuma evidência científica de que vai ser diferente. De maneira geral, essa é uma doença que, por enquanto está no Hemisfério Norte, e está começando a vir para o Hemisfério Sul. E não dá para saber como vai ser. É isso aí. Boa noite".

G1
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