16 de Setembro de 2019
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Manhãs Maritacas

COLUNISTA - José Benjamim de Lima

A alegria eleva a mente e, de modo correspondente, o corpo. Adam Potkay, "A História da Alegria”

Todos os dias, desde a primavera e agora no verão, acordo com o vaivém das maritacas que
cruzam os ares ruidosamente, pousando, sem nenhuma discrição, nas copas das árvores de
meu quintal e adjacências, onde ficam algum tempo altaneiramente empoleiradas,
"conversando”.

Não se sabe o que "conversam”, mas são diálogos estridentes, nos quais parecem estar
comentando, radiantes, a beleza da manhã, o sol, a luz, o verde e o vento. Ou, então, quem
sabe, rindo zombeteiramente desses desengonçados seres sem asas que as observam,
conhecidos como espécie humana. A "conversa” geralmente é breve, pois logo em seguida
partem em revoada, sempre barulhentas, rumo a outra árvore próxima, onde retomam o
papaguear, como quem faz questão de proclamar alacremente a alegria de viver.

As maritacas se reproduzem entre os meses de agosto e janeiro, fase de namoro e
acasalamento. Talvez por isso toda a exuberância de sua tagarelice. É o amooor... São muitas
as designações para essas aves conversadeiras. Maritaca, maitaca, maitá, baitaca, variantes da
origem tupi-guarani de seu nome, "-mba’é’taka”, que significa "coisa ruidosa, barulhenta”.
Nada mais apropriado para designá-las, com a ressalva de que os barulhos que fazem, ao
menos para mim, soam como claras manifestações de alegria.

John Locke, no "Ensaio Sobre o Entendimento Humano” definiu a alegria como sendo "um
deleite da Mente, diante da consideração de um Bem presente ou que certamente se
avizinha”. Muitos dirão que isso não se aplica às maritacas, seres desprovidos de qualquer
noção do que seja presente ou futuro próximo, muito menos de capacidade mental para sentir
qualquer deleite. Será mesmo assim?

As manhãs maritacas que me acordam são tão alegremente expressivas (quase estava dizendo
explosivas), que tendem a me convencer de que o sentimento de alegria não é algo que
acometa apenas os seres humanos; aves e animais também devem tê-lo em alguma
proporção. Pesquisas recentes, de etólogos e neurocientistas, vêm confirmando que não é
mera projeção antropomórfica pensar que muitos seres vivos não humanos demonstram ter
atividade cerebral, emoções e sentimentos, ainda que em grau menos sofisticado que o da
consciência humana. "As evidências de hoje indicam que muitos animais sentem alegria,
tristeza, pena...” – afirma o biólogo Marc Bekoff, da Universidade do Colorado.

Tenha ou não confirmação científica, o fato é que as ruidosas maritacas me passam um grande
sentimento de alegria. Segundo o filósofo Spinosa, grande pensador dos afetos, na sua "Ética”,
"a alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor a uma maior”. As contagiantes
maritacas têm exatamente esse dom: o de me trazerem à porta de casa a alegria e, com ela, o
sentimento de que "Não faz muito sentido / Não esperar o melhor”, como canta o conjunto
Madredeus, na bela voz de Teresa Salgueiro. É às vezes difícil para os humanos dar-se conta de
que a alegria, como disse Oswald de Andrade no seu Manifesto Antropófago, é a prova dos
nove. E eu acrescentaria: é a prova dos nove da vida. Deve ser buscada a cada dia, a cada hora.

Louvemos as ruidosas maritacas, que sabem que a alegria é a prova dos nove da vida e nos
ajudam a encontrá-la.

José Benjamim de Lima - [email protected]
José Benjamim
Advogado. Promotor de Justiça aposentado. Mestre em Direito. Aborda temas ligados ao Direito, com ênfase em questões de cidadania e da comunidade assisense.
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