01 de Dezembro de 2022
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Zeca Santili: um homem à frente de seu tempo

Por Márcio Santilli

Neste 5 de outubro, transcorreu o centenário do nascimento de José Santilli Sobrinho, chamado de Zéca por todos. Ele nasceu em Mineiros do Tietê (SP), morou em São Paulo e Brasília nos períodos em que exerceu a representação política da região, mas cresceu e viveu a maior parte da sua vida em Assis (SP), cidade à qual devotou a sua cidadania, de coração.

Homenageado por Assis no final da sua vida, o Zéca não quis ser nome de avenida. Ofereceu o seu nome para a usina de reciclagem de lixo, hoje praticamente desativada, que fica na saída para Cândido Mota. Financiada pelo BNDES, a usina foi uma iniciativa pioneira no rumo da sustentabilidade socioambiental, gerando empregos formais para os catadores de lixo, reciclando materiais reaproveitáveis pela indústria, produzindo adubo para os agricultores e mantendo a cidade limpa, a um custo bem menor do que o praticado atualmente.

André Dusek - José Santili Sobrinho, 1982 - Foto: André Dusek
José Santili Sobrinho, 1982 - Foto: André Dusek


As heranças deixadas pelo Zéca vão muito além do próprio nome e de uma visão de futuro sustentável, ainda não alcançado, que a usina de lixo representava. A sua história política pode ser sintetizada em três fases, bem marcadas: (1) os três mandatos exercidos como deputado estadual, entre 1955 e 1966; (2) os quatro mandatos como deputado federal, entre 1967 e 1982; e (3) os dois mandatos como prefeito de Assis, de 1983 a 1988, e de 1993 a 1996, respectivamente.

CENTRO DE SERVIÇOS

A primeira fase se deu no período democrático anterior ao golpe militar de 1964. O Zeca integrou a bancada governista na Assembleia Legislativa durante os mandatos de Jânio Quadros e de Carvalho Pinto. Nessa condição, obteve o apoio político necessário para criar escolas estaduais em vários municípios da região, instalar representações do DER, da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, da Secretaria da Agricultura e da Polícia Militar, além da criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, então conhecida como FAFIA e que, hoje, constitui a unidade local da UNESP.

Essas conquistas consolidaram a posição de Assis como centro regional de prestação de serviços, fortalecendo, também, a agricultura e o comércio, atividades econômicas mais tradicionais do município. Novos empregos públicos e privados abriram os horizontes para muitos dos filhos dessa região, além de trazerem para ela novos quadros profissionais e cidadãos, forjando o protagonismo político da classe média local. Foram tempos de grande mobilização política, do que as greves dos ferroviários foram exemplos memoráveis.

divulgação - Zeca Santilli e o Prof. Antonio Soares Amora, os criadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, hoje UNESP - Foto: Divulgação/Redes Sociais
Zeca Santilli e o Prof. Antonio Soares Amora, os criadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, hoje UNESP - Foto: Divulgação/Redes Sociais


RESISTÊNCIA À DITADURA

Eu tinha apenas oito anos, mas me marcou para sempre a cena do Zeca Santilli, de pijama, recebendo, pelo telefone, a notícia do golpe militar, nas primeiras horas de 1° de abril de 1964. A família se juntou à beira da escada para tentar entender o que acontecia. Ao encerrar a ligação, ele se voltou para os filhos, com lágrimas nos olhos, e disse: "o que aconteceu hoje vai prejudicar imensamente a vida de vocês"!

Logo após o golpe, o Zeca foi um dos fundadores do MDB, Movimento Democrático Brasileiro, único partido político de oposição legalmente admitido durante a maior parte do período de regime militar. Assis se tornaria um dos principais redutos da oposição no interior de São Paulo. O MDB venceu as eleições municipais em 1968 e em 1972, elegendo prefeitos o Tufi Jubran e o Abílio Nogueira Duarte. O Zeca exerceu outros quatro mandatos como deputado federal. Assis também teve Rui Silva, Hélio Rosas e o próprio Abílio como representantes nos legislativos estadual e federal.

Assis acolheu muitas pessoas que haviam sido perseguidas pelo regime militar, desde professores, que se transferiram para a FAFIA para poderem continuar os seus trabalhos, até militantes políticos, que tiveram aqui um ponto de apoio seguro para poderem deixar o país através da fronteira com o Paraguai. Apesar das agruras daqueles tempos, Assis dispunha de grande influência política, que foi sendo perdida nas décadas seguintes.

FORTALECENDO AS BASES

No início dos anos 80, o regime militar já estava em franca decadência. Em 1982, foram restabelecidas as eleições diretas para os governos dos estados. O MDB vinha de sucessivas vitórias nas eleições para senadores em São Paulo e o MDB lançou o Franco Montoro como candidato a governador. Naquele ano, houve eleições simultâneas, de vereador a governador, e foi imposto o voto vinculado, sendo considerados nulos os votos dados a candidatos de partidos diferentes. O regime pretendia municipalizar as eleições gerais, para tentar conter o constante avanço da oposição.

Nomes mais fortes do MDB foram mobilizados para fortalecer as bases municipais do partido. O Zéca seria, outra vez, candidato a deputado federal, mas acolheu um apelo do partido para disputar a prefeitura de Assis. Com a abertura democrática avançando de forma irreversível e a provável conquista do governo estadual pelo MDB, o Zéca decidiu aproveitar aquela oportunidade histórica para liderar uma verdadeira revolução administrativa na cidade.

divulgação - Outro grande companheiro de Zeca e seu vice-prefeito na eleição de 1982, Nico - Foto: Marcos Santilli, feita na velha casa do sítio
Outro grande companheiro de Zeca e seu vice-prefeito na eleição de 1982, Nico - Foto: Marcos Santilli, feita na velha casa do sítio


O Zeca se elegeu prefeito para um mandato de duração excepcional, de seis anos, que foi necessário para retomar a descoincidência dos mandatos municipais em relação aos demais. De quebra, este filho que vos escreve foi eleito deputado federal. Montoro assumiu o governo estadual e, dois anos depois, o MDB chegaria à presidência da República.

REVOLUÇÃO PELA EDUCAÇÃO

Avenidas foram abertas, como a Perimetral e a Pascoal Santilli, para integrar os diversos bairros da cidade. Escolas, postos de saúde e outros equipamentos públicos foram implantados em todos os bairros, fazendo chegar até eles o asfalto, a iluminação pública, a água e o esgoto, facilitando o acesso do transporte público, da coleta do lixo e das rotinas de segurança.

A posição de Assis como polo de prestação de serviços foi reforçada, com a conclusão do Hospital Distrital, com a instalação do Batalhão da Polícia Militar e com a criação do CIVAP, que articula as prefeituras, e da FICAR, espaço privilegiado para a realização de grandes eventos regionais.

Mas o maior destaque da atuação do Zéca foi nas políticas para a educação e a cultura. Com o imprescindível apoio da sua esposa, Cida Santilli, principal parceira e educadora de profissão, animando uma jovem equipe de gestores, a rede de escolas municipais foi recuperada e ampliada. Funcionários e professores foram valorizados e tiveram acesso a inúmeros cursos de formação. Todos alunos dispunham do transporte, do material escolar e de merenda da melhor qualidade.

divulgação - Foto na Prudenciana, na campanha à prefeitura de Assis, em 1982 - Foto: Divulgação/Redes Sociais
Foto na Prudenciana, na campanha à prefeitura de Assis, em 1982 - Foto: Divulgação/Redes Sociais


Uma extensa rede de pré-escolas foi constituída ao longo das gestões do Zéca, não apenas abrigando e assistindo as crianças entre dois anos e a idade escolar, mas também desenvolvendo processos pedagógicos. Além de facilitar a vida das mães trabalhadoras, a pré-escola ajuda as crianças a terem um melhor desempenho escolar futuro.

Na outra ponta, foi criada a FEMA, que ampliou e diversificou o acesso dos estudantes ao ensino superior. Nesses anos, a FEMA vem tendo uma importância fundamental para a qualificação de profissionais na região, apesar da recente e lamentável polêmica sobre os altos salários recebidos por slguns dos seus professores e dirigentes. Ao lada da UNESP e de outras escolas privadas, a FEMA consolidou Assis como centro universitário.

Também cabe destacar a criação do SEMEAR, que promoveu a produção e a comercialização de artesanato, e do SEMEARTE, que envolveu milhares de jovens e de crianças de todas as regiões da cidade em diversas atividades culturais, enriquecendo a sua formação e despertando novos talentos para a música, a pintura e o teatro.

HERANÇAS E REFLEXÕES

Muitas iniciativas lideradas pelo Zéca não permanecem. A usina de reciclagem é apenas uma delas. Há o que estudar e o que resgatar, a depender do interesse das futuras gerações. Mas é incalculável o tamanho da diferença que a sua passagem por essa vida fez a esta cidade. O que ficou, mudou para sempre corações e mentes.

Falo, também, do estudante, do professor, do esportista, do militar, do economista de formação, do empresário de atuação, do filho, do irmão, do pai, do marido, do amigo, do Homem que foi, na melhor acepção da palavra, além do agente político transformador.

O meu intuito, com essas linhas, não é promover o culto à fascinante personalidade do Zéca Santilli, até porque essa nunca foi preocupação relevante sua. Mas quero, com elas, aproveitar o seu centenário para subsidiar as reflexões dos cidadãos de Assis sobre o futuro que queremos para a nossa cidade.
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Márcio Santili
Márcio José Brando Santilli é um político e ativista dos direitos dos povos indígenas brasileiros. Filho da professora de literatura Maria Aparecida de Campos Brando Santilli e de José Santilli Sobrinho, graduou-se em Filosofia pela UNESP. Cresceu na cidade de São Paulo.
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